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Diversidade de Hábitos
Reprodutivos dos Peixes - Parte II

Antonio Carlos Palermo Chaves *


Os Actinopterygii (“peixes ósseos”) estão distribuídos com aproximadamente 1/3 das espécies em “águas doces” e 2/3 das espécies em águas salgadas. Apresentam considerável importância econômica para o homem e notável importância ecológica. Nesse grupo, estão a maior diversidade de hábitos (reprodutivos, alimentares etc) e de formas entre todos os vertebrados. Pode-se apontar, entre outras, as seguintes características comuns: pele coberta com muitas glândulas mucosas, sendo que a maioria apresenta escamas; a boca geralmente é terminal e com dentes; o esqueleto é ósseo, exceto em alguns poucos casos; as gônadas são pares.


O sistema genital é relativamente simples e está, na maioria dos casos, completamente separado do sistema excretor, tanto nos machos quanto nas fêmeas.

Nas fêmeas, os ovócitos passam pelos ovários (normalmente pares, podendo em alguns casos formar uma única gônada) que são unidos pelos ovidutos, até saírem pela abertura urogenital, em um número que pode atingir os 300.000.000 (peixe-lua) e tamanho de 0,8 a 21mm e forma (esférica, elíptica, cilíndrica etc) variados, sempre dependendo da espécie. Nos machos, de um modo geral, os espermatozóides passam pelo ducto espermático (ducto deferente), que liga os testículos a cavidade (abertura) urogenital.

Podemos apontar três estilos (tipos) de reprodução nos “peixes ósseos”: heterossexuada, hermafrodita e partenogenética. Na reprodução heterossexuada, os gametas (óvulos e espermatozóides) se desenvolvem em indivíduos separados (fêmeas e machos) e podem ser ainda subdivididos em ovulípara, ovípara e ovovivípara.


Na ovulípara, tanto a fecundação quanto o desenvolvimento são externos e ocorre na maioria dos casos; os ovócitos expelidos pela fêmea, são fecundados na água após a liberação do líquido espermático pelo macho, sendo que neste tipo de reprodução, é eliminado um grande número de ovócitos, principalmente pelas espécies que não protegem a prole.

Na ovípara, a fecundação é interna e o desenvolvimento é externo. Na ovovivípara, fecundação e desenvolvimento são internos, mas sem a participação direta do organismo da fêmea no processo de nutrição do embrião.

A reprodução hermafrodita não é comumente vista e a autofecundação só se faz presente em uma espécie de Rivulidae (Kryptolebias ocellatus), mesmo sendo o indivíduo possuidor de ovários e testículos. Em truta arco-íris por exemplo, parte da prole passa por uma fase de intersexualidade e os indivíduos tornam-se machos e fêmeas de acordo com as necessidades da população.


O hermafroditismo é comum nas famílias Serranidae e Sparidae, ambas de peixes marinhos, sendo que alguns serranídeos são hermafroditas com protandria, ou seja, machos tornam-se fêmeas. Quando fêmeas tornam-se machos, vê-se o caso de hermafroditismo com protogenia. A reprodução partenogenética pode ser considerada como uma verdadeira aberração entre os vertebrados, já que os ovócitos desenvolvem-se sem que tenha ocorrido a fertilização. Em Poecilia formosa, peixe amazônico, encontramos esse tipo de reprodução, onde os espermatozóides servem apenas para excitar o desenvolvimento dos ovócitos; a prole é sempre constituído por fêmeas e os machos presentes na população, são resultado a inversão sexual das fêmeas.

Principalmente na reprodução heterossexuada, as adaptações reprodutivas são diversas, tanto no que se refere a fertilização, quanto aos cuidados parentais.

Ovos caem livres no meio e desenvolvem-se por si ou podem ser cuidados por um ou por ambos os genitores; desenvolvem-se em ninhos especialmente construídos (beta), em depressões no substrato, em locais lisos como por exemplo folhas de plantas; podem desenvolver-se na boca da fêmea (alguns ciclídeos), dentro de uma bolsa incubadora do pai (cavalo-marinho e peixe-cachimbo) etc.


As adaptações reprodutivas parecem atingir o ápice em Photocorynus spiniceps, peixe marinho que habita profundidades consideráveis, onde o macho é extremamente menor que a fêmea, possuindo a maioria dos órgão atrofiados, com exceção dos reprodutores que são funcionais; alimenta-se de substâncias transferidas pela fêmea.

Em Rhodeus amarus, um ciprinídeo, ocorre mais um caso de extrema adaptação: os ovócitos são depositados perto do sifão inalante de um molusco bivalve; a “cloaca” da fêmea, transforma-se em um ovissaco tubular, devido a hormônios secretados pelos ovários enquanto que a presença de progesterona e substâncias afins, encontradas no meio, provocam o crescimento do ovissaco. Quando a fêmea está liberada para liberar os ovócitos, adota uma posição vertical, o macho a circunda incessamente, os ovócitos passam pelo ovissaco (ereto devido a pressão da “urina”). Ovócitos e espermatozóides são aspirados até o interior do molusco, onde ocorre a fertilização e o desenvolvimento do ovo.


Outra adaptação reprodutiva, esta melhor estudada e mais conhecida, ocorre nos poecilídeos (guppies, espadas, platis, molinésias). O macho possui alguns raios da nadadeira anal transformados em órgão de cópula, o gonopódio. Após a realização da corte pré-copulatória, a fêmea adota uma postura típica para facilitar a cópula; tal fato deve-se, em parte, a um fator interno da fêmea e, em parte, por uma substância secretada pelo macho. Após a fertilização interna, os embriões ficam aderidos à parede do ovário e desenvolvem-se livremente dentro do “saco ovariano”, nutrindo-se de uma substância embriotrófica produzida pelos folículos ovarianos vazios, que adquirem grande vascularização durante o período da reprodução.

Os representantes da família Syngnathidae (cavalos-marinho e peixes-cachimbo) apresentam adaptações únicas entre os peixes. O macho possui, na região ventral, uma bolsa que, na época da reprodução, torna-se altamente vascularizada.


Em um verdadeiro ritual, o macho e a fêmea, partem para a corte e, em pouco tempo a fêmea entrelaça o macho com a cauda; chocam-se diversas vezes até que a bolsa do macho esteja sem o ar que porventura tenha se alojado ali. Com um órgão especializado (ovopositor), a fêmea deposita os ovócitos em uma abertura da bolsa do macho; ato contínuo, os ovócitos são fecundados e alojados dentro da bolsa, que pode abrigar até aproximadamente 600 ovos. Após alguns dias os ovos eclodem e os embriões ficam abrigados dentro da bolsa e, em aproximadamente cinco semanas, os filhotes a deixam, já com o formato definitivo.

* Biólogo, com Especialização em Biologia Marinha e Mestrado em Biologia Animal. Professor de Zoologia e Parasitologia da UNISUAM


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