Apesar da produção comercial de acarás disco em diversos países, principalmente naqueles do continente asiático, que estão freqüentemente criando e colocando no mercado novas variedades, a pesca desses peixes em estado nativo, na região da bacia do alto Rio Negro, ainda é uma atividade que envolve altas somas e grande número de indivíduos.
Os pescadores de Acará disco
Os pescadores de acará disco são chamados de piabeiros: são habitantes das margens dos rios, sobrevivendo da atividade de coleta de peixes ornamentais.
A atividade em questão já vem sendo praticada há várias décadas; acredita-se que desde o ano de 1950 já havia indivíduos se dedicando ao extrativismo de peixes para exportação, para povoarem os aquários do mundo. Dados recentes estimam em dez mil o número de pessoas envolvidas com a citada atividade e este número vem aumentando, progressivamente, em função, principalmente, da falta de alternativas viáveis de subsistência naquela região. Assim, filhos, netos, sobrinhos e outros parentes vão se incorporando a atividade do líder familiar.
Os piabeiros são em sua grande maioria descendentes de índios, habitam casebres às margens do próprio rio onde trabalham e vivem em condições precárias, pois a pesca dos peixes ornamentais só é possível durante seis meses no ano – na época da vazante - que ocorre entre os meses de outubro a abril; nos outros meses do ano eles passam necessidades, pois geralmente não encontram outra maneira de se sustentarem.
A maioria dos piabeiros está agregada a empresas de distribuição de peixes ornamentais que fornecem adiantamentos e empréstimos, muitas vezes financiando suas viagens e em contrapartida exigindo, fidelidade na destinação do produto da pescaria.
Os Principais Métodos de Pescaria dos Discos
Os piabeiros utilizam três maneiras distintas para capturarem os discos. Essas três formas são chamadas, por eles, de “pescaria de galhadas”, “pescaria de focar a noite” e “pescaria nos lagos”.
A Pescaria de Galhadas
Os pescadores saem em barcos, chamados de “batelão” e, ao chegarem aos igarapés onde habitam os discos, cortam os galhos, provenientes das árvores existentes às margens. Esses galhos ou galhadas são arrumados em pontos estratégicos dentro dos igarapés, fornecendo possíveis esconderijos para os discos. (algumas galhadas chegam a medir quinze metros). Esta tarefa de preparação das armadilhas toma praticamente todo o dia. Após executá-la vão pernoitar no rancho (acampamento). Na manhã do dia seguinte retornam às armadilhas trazendo grandes redes (as redes medem aproximadamente vinte e cinco a trinta metros de comprimento por dois a três metros de altura). Com bastante cautela os piabeiros cercam as galhadas, prendendo desta forma os animais que ali se refugiaram. Evidentemente não são somente discos que estarão dentro da rede: poraquê, piranha e até uma sucuri poderão estar presos junto a uma variedade incrível de outros peixes e organismos aquáticos. Os discos então são coletados e acondicionados em armadilhas feitas de tela plástica dentro do próprio igarapé.
As piranhas mordem os discos
Quando a rede é fechada, os animais que ficaram presos debatem-se vigorosamente; os discos ao se debaterem cortam-se uns aos outros: a presença do sangue atrai rapidamente as piranhas que poderão morder os discos mutilando-os. Alguns discos desesperados conseguem saltar por cima da rede e ganhar a liberdade.
Os discos mutilados ou feridos são jogados para fora do rio
Os piabeiros têm o péssimo hábito, de ao coletarem um disco mutilado, faltando pedaços, com hematomas, com falta de barbatanas, sem cor, entre outros, jogarem-no para a terra, para que morra e não volte a ser pescado. As mutilações são provenientes, principalmente de ataques que o animal sofreu de algum predador e conseguiu escapar. O percentual de peixes mutilados, dependendo do local, pode chegar até dez por cento dos peixes capturados.
A pescaria de focar a noite
Este tipo de pescaria é utilizado principalmente para capturar uma determinada variedade de disco, disco heckel, que habita igarapés onde a água é mais clara. Para este tipo de pescaria eles utilizam um pequeno barco chamado de “montaria” que cabe somente um indivíduo. Na “montaria”, é adaptada uma bateria elétrica, daquelas utilizadas para veículos automotores. Na bateria é ligado um fio que por sua vez irá acender um farol, também de veículo. O farol é adaptado ao chapéu do pescador. O barco pequeno após a adaptação da bateria só caberá um único pescador, portanto, nesta pescaria o indivíduo estará solitário, na noite escura da floresta, sujeito ao ataque de jacarés, serpentes venenosas, entre outras ameaças; então o seu sucesso dependerá do seu sangue frio, da sua experiência e da sua perseverança.
O barco desliza suavemente, por entre os igarapés e o pescador, debruçado em sua borda, ilumina com o farol as águas claras do igarapé examinando a vegetação, troncos e pedras submersos. Na mão um puçá de cabo bastante comprido aguarda a hora de agir. Quando o disco é avistado, fica cego por alguns instantes, pela presença da luz do farol. O pescador com um golpe certeiro o captura. Ele não deve errar, pois não terá outra oportunidade com aquele peixe.
A pescaria nos lagos
Na época da vazante, as águas que inundaram a floresta na época da cheia retornam para o leito dos rios. Milhares de peixes não conseguem voltar com as águas, ficam retidos em declives do terreno, que se transformam em lagoas e lagos temporários. Entre esses peixes estão também os discos que se deixaram enganar por “aquela armadilha da natureza”. Esses “restos de água” começam a secar com o calor abrasador da região, então eles ficam a mercê dos predadores. As garças, jacarés, martins pescador, socós, serpentes e outras espécies de animais se banqueteiam. Os ribeirinhos procuram esses lugares e dependendo do tamanho do lago capturam os discos até com as mãos.
O rancho ou acampamento
Os piabeiros saem em seus barcos “rio acima”, afastando-se bastante da civilização muita vezes chegando a ficar pescando no rio por mais de vinte dias. Fazem um acampamento próximo ao rio onde habitarão enquanto durar a pescaria. A esse acampamento eles chamam de rancho.
Próximos ao rancho, dentro do rio, constroem um cercado de tela plástica, de malha fina, onde são acondicionados os peixes que são pescados diariamente. Quando a pescaria atinge a quantidade de peixes desejada, os acarás disco são acomodados em caixas plásticas (aquelas utilizadas para armazenamento de peixes comestíveis nas peixarias ou feiras livres, com capacidade para cinco a sete litros) que são arrumadas nas embarcações.
Os piabeiros comem o rei dos Aquários
A título de curiosidade vale relatar que os piabeiros não fazem distinção entre os peixes que comem; assim, aqueles discos muito grandes, que são inviáveis para serem armazenados nas caixas plásticas são comidos por eles. Os peixes são preparados em caldeiradas para serem comidos no local ou defumados para carregarem em suas mochilas e comerem durante o dia na hora do trabalho.
A Negociação do Acará Disco
O município de Barcelos, situado a 450 km de Manaus, é o centro nervoso do comércio de peixes ornamentais, capturados na bacia amazônica, e, evidentemente, o acará disco possui um peso relevante neste cenário. A maioria dos habitantes daquele município está direta ou indiretamente envolvida com a atividade de pesca de peixes ornamentais. A atividade de captura e venda de peixes exóticos é a principal fonte de renda daquele município. No porto de Barcelos o movimento diário é muito grande; muitas embarcações são vistas a todo instante, chegando e saindo, carregadas de peixes ornamentais. São piabeiros chegando com suas cargas, outros saindo para uma nova pescaria ou são comerciantes a procura do “ouro vivo” ; chamado assim, hipoteticamente, os peixes ornamentais em função dos lucros enormes auferidos por aqueles atacadistas.
Em Barcelos milhões de peixes são vendidos anualmente. Dados do projeto Piabas estimam que quarenta milhões de peixes para aquários sejam retirados anualmente da bacia Amazônica, sendo que oitenta por cento deste total são de cardinais (Paracheirodon axelrodi), os outros vinte por cento seriam as outras espécies.
Tentei levantar, junto aos atacadistas e até mesmo com alguns pescadores, qual seria aproximadamente a quantidade de discos capturados por ano, porém ninguém soube responder.
A negociação movimenta altas somas, atacadistas nacionais e estrangeiros, muitos radicados em Manaus, onde estão instaladas diversas empresas de exportação de peixes ornamentais, vêm a Barcelos conseguir suas preciosas cargas.
Tive a oportunidade de visitar vários atacadistas de peixes ornamentais daquela região, das quais destaco a Piscicultura Prestigium, em Manaus, onde fui recebido com muita cordialidade pelos titulares. Os responsáveis levaram-me a conhecer suas instalações, explicando, inclusive detalhes do funcionamento.
Pude observar uma grande quantidade de acarás disco acondicionados em tanques de aproximadamente dois metros de comprimento, por um metro de largura e por cinqüenta centímetros de altura da lâmina d’água. Chamou-me a atenção às placas de identificação afixadas em cada tanque, que continham informações relativas à espécie, à data da pesca, nome do pescador e o nome e o trecho do rio onde os peixes foram coletados. Fui informado que os compradores do exterior faziam questão daqueles dados. Na piscicultura existe toda uma infra-estrutura e pessoal treinado para a recuperação dos animais, que geralmente chegam estressados e debilitados. Os animais são tratados com antibióticos e alimentados com coração de boi crú até que se recuperem do estresse da captura e da viagem. Muitos peixes não conseguem sobreviver.
As informações constantes deste artigo são frutos da pesquisa, feita por mim, com piabeiros, com empregados de empresa de distribuição de peixes nativos, quando da minha viagem ao alto Rio Negro; com Ricardo Santana um carioca que se dedica à exploração da atividade de coleta de peixes ornamentais no alto Rio negro e através de dados obtidos junto ao Projeto Piabas, entidade de preservação de peixes nativos da região do alto Rio Negro.
* Graduado em Ciência Biológicas, Pós-Graduando em Biologia Marinha, Articulista e Consultor de Relações Públicas da Revista Mania de Bicho
(wilsonvianna@maniadebicho.com.br)