Dos principais grupos de vertebrados, o que cohecemos como peixes é o que apresenta a maior diversidade de formatos, hábitos alimentares e reprodutivos e, certamente, o grupo que mais chama a atenção quando mantido em cativeiros aquáticos (aquários).
Para que possamos manter esses animais em aquários, devemos, no mínimo, conhecer seus hábitos naturais para que possamos tentar reproduzir com a máxima fidelidade o ambiente natural em cativeiro.
Um dos mais grupos mais intrigantes e poucos vistos em aquários é o que reúne os tubarões, as raias e as quimeras. O grupo classificado como Elasmobranchii (do grego, elasmo, placa + branch, brânquia) sempre foi temido pelo homem, especialmente no que se refere aos tubarões.
Com o filme “Tubarão” (Jaws), de 1975, dirigido pelo reconhecido Steven Spielberg, tubarões passaram, definitivamente, a ser tratados como inimigos dos seres humanos; no filme, vencedor de 3 oscars, um descomunal tubarão branco aterrorizava uma pacata cidade litorânea dos E.U.A., devorando diversas pessoas e sendo caçado implacavelmente por um obstinado e pequeno grupo, até que acaba morto.
À partir dos anos 90, diversos grupos tentam desfazer a imagem de cruel matador, imposta aos tubarões. Hoje, já se sabe, que a carne humana sequer é palatável à esses vertebrados que, provavelmente se enganam e confundem o seu humano dentro d´água, com tartarugas ou focas; ao morder, não gostam do sabor da carne e “a cospem”.
Pertencentes ao Filo Chordata, estes vertebrados eram classificados na Superclasse Pisces que por sua vez era dividida em duas classes: Chondrichthyes (peixes cartilaginosos - tubarões, cações, raias e quimeras) e Osteichthyes (peixes ósseos - todos os demais). Esta classificação mostrou-se extremamente artificial mas, apesar disso, ainda é freqüentemente encontrada em livros de Zoologia, mesmo nas edições mais recentes. Yong em “Biologia de los vertebrados” usa, resumidamente, a seguinte classificação: Filo Chordata (cordados); Subfilo Vertebrata (vertebrados); Superclasse Gnathostomata (lampréias e peixes-bruxa); Classe Elasmobranchii (tubarões, raias e quimeras); Classe Actinopterigii (peixes ósseos) e Classe Crossopterygii (celacanto e peixes pulmonados - pirambóia). Essa classificação já não mais agrupa o celacanto e as pirambóias com os demais peixes ósseos.
Atualmente, baseados na Sistemática Filogenética, biólogos de todo o mundo utilizamos uma nova concepção no que diz respeito a classiicação zoológica. Agrupam os vertebrados em cinco grupos distintos: Elasmobranquiomorfos (tubarões, raias e quimeras), Actinopterígeos (grande maioria dos peixes ósseos), Actinísteos (celacanto), Dipnóicos (pulmonados) e Tetrápodas (anfíbios, répteis, aves e mamíferos).
Manutenção de Tubarões em Aquários
Normalmente não vemos aquários residenciais povoados com tubarões; quando os vemos confinados em cativeiro, isso se dá em aquários ou tanques de pesquisa ou em locais de visitação pública. Mesmo assim, é perfeitamente possível manter tubarões em aquários residenciais, desde que se escolha a espécie certa, mantenha-se um aquário compatível com suas exigências e se tome certos cuidados.
Caracterizados por possuírem esqueleto cartilaginoso, os tubarões apresentam ainda escamas placóides (dentículos dérmicos) e, juntamente com as raias, 5 a 7 pares de fendas branquiais, comunicando a câmara branquial com o meio externo. Medem desde 30cm a 18m. Sem exceção, a fecundação é interna. Os machos apresentam uma modificação na margem interna da nadadeira pélvica, em forma de órgão copulador, o clásper; na cópula, este é introduzido na abertura genital da fêmea, para a passagem do esperma.
O desenvolvimento do ovo pode ser interno ou externo. Quando interno, pode ser ovovivíparo (sem “ligações placentárias” entre o embrião e mãe) ou vivíparo (neste caso, com formação de uma estrutura semelhante a uma placenta). Quando externo (ovíparo), o ovo é envolvido por uma membrana de proteção, com prolongamentos para fixação ao substrato, por exemplo. Em aquários, duas espécies são mantidas com certa facilidade: o tubarão-limão, Negaprion brevirostris e o tubarão-leopardo, Triakis semifasciata. O primeiro, pertence a família Odontaspidae, é mantido em grandes aquários por muitos anos, chegando inclusive a acasalar-se. O segundo, pertence a família Triakidae, quando capturados ainda jovens, crescem pouco em cativeiro; nascem com cerca de 20 a 25cm. Negaprion brevirostris cresce até 3,3m.
O cativeiro (aquário) deve ser de bom tamanho, possuir um sistema de filtragem eficiente (não podemos esquecer que os elasmobranquiomorfos excretam uréia) e não deve ser ornamentado, para que o animal não tenha obstáculos a transpor.
O maior problema para adaptação desses peixes em cativeiro é a alimentação. Os de fundo devem receber de início crustáceos vivos (camarões, por exemplo). Os pelágicos são de adaptação mais difícil e devem receber inicialmente peixes vivos; quando adaptados, pode-se oferecer além do costumeiro, peixes mortos e crustáceos, vivos ou mortos.
A coleta e o manuseio deve se dar sempre com a utilização de redes e nunca com as mãos. São peixes cartilaginosos, portanto com uma “estrutura frágil”; algumas espécies possuem um “espinho dorsal” que pode ferir gravemente, além da sempre perigosa mordida.
* Biólogo com Especialização em Biologia Marinha e Mestrado em Biologia Animal. Pesquisador e Professor de Zoologia e Parasitologia da UNISUAM