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Aves de Rapina

Jorge Eduardo de Almeida *


Sob esta denominação incluimos cinco famílias de aves: Falconídeos, Acipitrídeos, Catarttídeos, Pandionídeos e Sagitarídeos. Há ainda quem inclua entre as aves de rapina a ordem dos Estrigiformes, que são as corujas, caborés, suindaras, môchos, murucututus etc, como rapaces noturnos. Aqui falaremos somente dos rapinantes diurnos, pertencentes a ordem dos Falconiformes e que está dividida nas cinco famílias citadas acima.

De um modo geral, todos os representantes desta ordem se caracterizam por uma visão apuradíssima, excepcional capacidade de vôo (com raras exceções) e alimentação carnívora, incluindo-se as variações piscívoras, insetívoras, necrófagas etc.



Desde a antiguidade os rapaces sempre despertaram a atenção dos homens, sendo considerados símbolos de força, liberdade e nobreza. Apenas o grupo tipicamente necrófago, como os abutres e urubus não gozavam de boa reputação; mesmo assim há exceções, como o condor dos andes, que é o maior abutre do mundo com uma envergadura de asas que pode ultrapassar os três metros e que é símbolo de poder, visto como ave altaneira, senhor das grandes altitudes e que serve ou serviu no passado como emblema de várias unidades aeronáuticas, não só nos países onde ocorre, como Chile, Argentina, Bolívia e Peru, mas também na Europa e outros países do mundo.

As relações do homem com os rapinantes ao longo dos séculos variaram da admiração absoluta ao ódio mortal; por exemplo, foram e ainda são emblemas nos brasões de nações poderosas como no Império Romano, que adotou a águia-real e na atualidade os Estados Unidos que adotam a bald eagle ou águia de cabeça branca. Por outro lado o acauã, que é um parente dos falcões, típico da américa tropical é tido no Brasil como ave de mau agouro e em todo o mundo os falcões, gaviões e águias foram perseguidos e mortos, ora por motivos econômicos (ataque as granjas, cordeiros e leitões) ora por ignorância de pessoas que os consideram aves malvadas que matam passarinhos, pombos etc.



Entre os admiradores das aves de rapina um grupo se destaca, aquele que descobriu nestas aves um colaborador admirável nas caçadas e treinando-as criou uma arte e um esporte conhecido pelos nomes de falcoaria, altaneria e setraria. Surgido provavelmente na Ásia, teve seu apogeu entre a nobreza européia durante a baixa idade média e o início da idade moderna (séculos XI ao XVI). Até hoje esta arte é cultivada em todo o mundo, embora sem a intensidade do passado, sendo utilizada não apenas em caçadas, mas também para proteger aeroportos de aves de bando que põem em perigo as aeronaves, em plantações atacadas por aves granívoras e até em terapia de crianças especiais, recuperação de presidiários comuns e, para livrar certas cidades do excessivo número de pombos. Entre os países que mais se destacam nesta arte ou esporte estão o Canadá, EUA, Escócia, Inglaterra, Portugal, Espanha, Áustria, Alemanha, Casaquistão, Japão e quase todos os países árabes e do Oriente Médio. Aqui na América do Sul destaca-se o Chile, utilizando com regularidade uma espécie de falcão de médio porte muito comum na América Latina, inclusive no Brasil: Falco femoralis, conhecido entre nós como falcão-coleira, além do tradicional falcão-real (Falco peregrinus). Como curiosidade nota-se que em alguns países europeus, sobretudo na Escócia, uma ave do nosso continente ganhou fama de ser uma das melhores para a prática desta atividade e tem sido criada por lá, tomando o lugar do sempre presente falcão-peregrino, que também é o preferido dos árabes. Trata-se de um gavião do gênero Parabuteo, conhecido no Brasil como casaca-de-couro.

No Brasil não ocorre apenas uma das cinco famílias de rapinantes, a dos Sagitarídeos, que é representada por uma única espécie, o Serpentário, exclusivo do continente africano e bem diferenciado dos demais falconiformes, sobretudo pelas longas pernas que o tornam um ótimo corredor nas savanas, onde caça não apenas cobras mas também pequenos roedores, lagartos e insetos.

Os Pandionídeos são outra família de uma só espécie: a águia-pescadora, que aparece regularmente no Brasil como ave migratória durante a primavera e o verão, voltando para nidificar na América do Norte durante o nosso outono/inverno.


     


As outras três famílias (Falconídeos, Acipitrídeos e Catartídeos) estão representadas em nosso país por inúmeras espécies, a maioria residente mas também por migradores, sendo o mais famoso o falcão-peregrino, que nidifica no Canadá, mas aparece em nossas terras entre setembro e março. Os catartídeos merecem destaque por serem exclusivos do continente americano... são os urubus e condores, também chamados abutres do novo mundo, já que os verdadeiros abutres ocorrem na África, Europa e Ásia. No Brasil ocorrem como residentes cinco espécies dessa família, todas conhecidas popularmente pelo nome de urubus, destacando-se o urubu-rei, não só por ser a espécie de maior porte mas também pelo colorido de sua plumagem e das partes nuas da cabeça, que fogem a regra das demais espécies (normalmente pretas), enquanto que nesta espécie a plumagem é predominantemente clara, entre o bege e o branco e a cabeça apresenta-se surpreendentemente colorida. Há registros confirmados de ocorrência do condor dos andes em Mato Grosso, mas aparentemente são visitas acidentais, pois o seu habitat natural é a grande Cordilheira dos Andes.

Entre os brasileiros de um modo geral é comum denominar todas as aves da ordem falconiformes como gaviões, exceto os urubus. Assim aves completamente diferentes, inclusive classificadas em famílias distintas são chamadas popularmente de gaviões seguindo-se um nome que identifica umas das outras, por exemplo: gavião-pombo, gavião-fumaça, gavião-real etc. No entanto algumas são conhecidas pelos nomes indígenas, tais como cauré, apacanim, uiraçu etc. Deste modo o povo coloca "no mesmo saco" a maior águia do mundo, a harpia, com cerca de dois metros de envergadura e peso entre 5 e 9 Kg e um pequenino falcão, como o quiriquiri, com envergadura de 35 cm e peso de 100 g. Originalmente o nome de gavião era usado pelos falcoeiros europeus para designar apenas os rapinantes do gênero Accipter de porte pequeno ou médio, enquanto que os de grande porte eram denominados açor. Outros gêneros da mesma família (acipitrídeos) recebem outros nomes , como águias, milhafres, búteos, açor-águia, etc e na família Falconidae, que se diferencia em diversos aspectos anatômicos da família Acipitridae, temos os falcões, esmerilhões, falconetes etc. E isto não ocorre apenas na língua portuguesa, pois é uma forma de classificação não científica usada inicialmente por falcoeiros mas que serve para toda gente, na Europa e Estados Unidos, distinguir os diversos tipos de rapinantes. Na língua inglesa, por exemplo, temos os nomes hawk, harrier, eagle, kite, hawk-eagle etc para denominar os diversos tipos de acipitrídeos e falcon, merlin, kestrel etc para os falconídeos. Ou seja, para um falcoeiro, ou mesmo observador de aves, ou qualquer cidadão europeu chamar a gigantesca harpia de gavião é algo considerado absurdo, pois pelo seu porte ela só pode ser considerada uma águia.



Entre os mais característicos falconídeos da fauna brasileira devemos obrigatoriamente citar o carcará, também conhecido pelo nome de carancho (gênero Polyborus) e seus parentes próximos de menor porte como o chimango, típico do sul do país e o pinhé, também chamado gavião-carrapateiro, encontrado em quase todo o território nacional (ambos pertencentes ao gênero Milvago). O carcará é bastante comum, principalmente em áreas onde as florestas não sejam muito fechadas, pois mesmo ocorrendo em áreas de matas, preferem os espaços mais abertos, como campos, caatingas, cerrado, pantanal, várzeas e até mesmo áreas urbanas. De porte avantajado para um falconídeo, chama logo a atenção, não apenas pelo tamanho mas também pela plumagem e pela vocalização: "car car car...". O gênero Herpetoteres, representado por uma única espécie, conhecida pelo nome de acauã também é muito comum e bem conhecido nas zonas rurais, onde presta um grande serviço alimentando-se de gafanhotos mas também de lagartos, ratos e cobras, no entanto tem fama de ser ave de mau agouro e ainda há quem acredite que a sua vocalização traga azar ou anuncie a morte de um familiar, como vimos na verdade é muito útil para as lavouras e também bonito, apresentando uma característica "máscara" negra na altura dos olhos, contrastando com a cor creme clara da cabeça e do ventre.

Ainda entre os falconídeos brasileiros encontramos o gênero Micrastur, com pelo menos quatro espécies, sendo duas de pequeno porte e outras duas de porte médio para grande, conhecidas pelos nomes de gavião-caburé, gavião-relógio, gavião-tem-tem...na verdade seria mais apropriado receberem a denominação de falcão-mateiro (na língua inglesa são chamados forest falcons), pois são habitantes de florestas, que caçam tanto nas bordas da mata mais aberta quanto no interior das matas mais fechadas, evoluindo com incrível desenvoltura entre a ramagem, graças a constituição de suas asas, muito curtas e arredondadas e de sua cauda longa. Caçam desde insetos até aves de bom porte, como jacus, papagaios, pombos etc. Quando da descoberta da América, alguns exemplares foram levados para a Europa e adestrados para falcoaria, alcançando altos preços devido a sua capacidade, sem paralelo de capturar a presa em matagais fechados onde outros falcões ou açores e gaviões não obtinham êxito.

Há também os falcões verdadeiros, aqueles pertencentes ao gênero Falco, ocorrendo no Brasil cinco espécies, sendo duas de pequeno porte (o já citado quiriquiri e o cauré ou cauré-i) e 3 de porte médio para grande: o falcão-coleira, o falcão-peregrino e o falcão-de-peito laranja ou cauré grande. Este último pode ser considerado o mais raro de todos ou o menos observado, embora ocorra na maior parte do território brasileiro, sendo um pouco menor que o peregrino é no entanto tão eficiente quanto ele na caça de aves ao vôo, por outro lado sua plumagem é quase idêntica a do pequeno cauré, o que freqüentemente confunde os observadores. Além do porte maior, o tamanho do bico e das patas,considerados proporcionalmente grandes para o seu tamanho e característicos de predador de aves, juntamente com sutis diferenças na plumagem do peito e das coxas o diferenciam do seu parente de pequeno porte, famoso na região norte como caçador de andorinhas e morcegos. Todos os representantes do gênero Falco caracterizam-se por adaptações ao vôo de alta velocidade, sendo normalmente predadores de aves que capturam em pleno ar, embora também cacem insetos e morcegos ao anoitecer. O falcão-peregrino é considerado a ave mais veloz do planeta, mas os demais representantes do gênero no Brasil não ficam muito atrás dele nesse quesito, sobretudo o ainda pouco estudado cauré grande e todos são extremamente eficientes nas suas caçadas aéreas, onde dão um verdadeiro show, com mergulhos picados, manobras fechadas com incrível rapidez e perseguições em velocidades espantosas.


     


Vamos conhecer agora o grupo mais numeroso: a família dos acipitrídeos. Presentes em todos os continentes, nele estão incluídos os verdadeiros abutres, que habitam a África, Europa e Ásia, diferentes dos urubus e condores, exclusivos do continente americano e pertencentes a família dos catartídeos. Também fazem parte desta numerosa família as águias, que são acipitrídeos de grande porte; os açores-águias, que são maiores do que os açores, porém menores que as verdadeiras águias; os açores, que são gaviões do gênero Accipiter de porte maior que um gavião comum, os verdadeiros gaviões, os milhafres e diversas espécies aparentadas, além de muitos outros rapinantes que não se encaixam nas terminologias populares.

Embora hajam espécies notáveis em todo o mundo, daremos ênfase as espécies brasileiras. Entre as águias, os puristas só consideram como verdadeiras as espécies pertencentes ao gênero Aquila, que entre outras características podem ser reconhecidas por possuírem o tarso (perna) totalmente emplumado, como a águia-real, a águia imperial, a águia-marcial etc. Estas espécies ocorrem, respectivamente na Eurásia, sul da Europa (Espanha) e África. Não ocorrem espécies deste gênero no Brasil, no entanto a palavra latina aetus também sempre foi utilizada para designar os grandes rapinantes que não tinham o tarso totalmente emplumado, sendo um sinônimo de águia. Assim no nosso país existem algumas águias, entre as quais destaco Geranoaetus melanoleucus, conhecida como águia-chilena, por ser relativamente abundante naquele país, embora ocorra também na Argentina, Uruguai, Paraguai, Peru, Bolívia e no Brasil pode ser encontrada nas regiões sul, sudeste, centro-oeste e nordeste. É uma águia de médio porte, dorso cinza e ventre branco. Outra águia brasileira pouco conhecida do cidadão urbano é Harpiallietus coronatus, conhecida no interior como águia-cinzenta ou gavião de penacho, sendo este segundo nome totalmente inadequado, inclusive porque existem no Brasil pelo menos sete espécies de rapinantes chamados popularmente por este nome, o que cria muita confusão. A águia-cinzenta é a segunda maior ave de rapina brasileira e uma das maiores do mundo, comparável em porte as águias do hemisfério norte; outrora abundante em toda a região do cerrado, tornou-se relativamente rara devido a destruição deste ecossistema pela ocupação agrícola, em tamanho e força só perde para a maior de todas as águias do mundo: Harpia harpija, que ocorre do México ao norte da Argentina e em quase todo o território brasileiro. Recebe diversas denominações populares, tais como gavião-real, uiraçu, harpia, gavião-de-penacho etc. Em inglês é chamada harpy eagle, ou seja águia-harpia (a harpia é um monstro mitológico, com corpo de águia e rosto humano). É sem dúvida o mais poderoso rapinante do mundo e suas presas estão em proporção com sua força: grandes macacos, bichos-preguiça, coatis, leitões, cabritos, filhotes de veados, araras, papagaios, jacus, mutuns,maguaris, grandes répteis (teiús, jibóias etc).



No grupo de grandes acipitrídeos menores que as águias, porém maiores que os gaviões comuns destacamos Morphnus guianensis, muito parecido com a harpia, porém menor e muito mais raro, chamado popularmente de uiraçu-mirim; Espizaetus ornatus e Espizaetus tirannus, conhecidos respectivamente como apacanim e gavião-pega-macaco e ainda Espizastur melanoleuco, chamado gavião-pato. Na verdade todos podem ser considerados como pequenas águias e predadores extremamente eficientes, tanto de aves como de mamíferos, capazes de caçar tanto em campo aberto como na mata fechada.

Entre os verdadeiros açores só contamos com uma espécie brasileira, aliás considerada rara ou pelo menos muito difícil de ser observada: Accipiter poliogaster; já entre os verdadeiros gaviões destaca-se o gavião-bicolor e entre os de pequeno porte duas espécies conhecidas como gaviãozinho e no sul gavião-bombachinha.

No grupo dos búteos destacamos Parabuteo unicintus, o casaca-de-couro, que é um extraordinário predador de aves e o único comprovadamente capaz de caçar em grupos organizados, duplas, trios e até quartetos que armam estratégias muito eficientes para fazer com que a presa ao fugir de um indivíduo do bando, caia nas garras de outro ou outros. Também faz parte deste grupo Buteogalus urubitinga, conhecido como gavião-caipira ou gavião-preto. E para fechar o grupo temos as aves pertencentes ao próprio gênero Buteo: B. brachiurus, B. albicaudatus, B. nitidus, B. (Rupornis) magnirostris etc. Este último talvez seja o rapinante mais popular não só do Brasil, mas de todo o continente americano, pois é muito comum em quase todos os tipos de ambiente, tendo sido mesmo capaz de se adaptar as transformações promovidas pelo homem é o "gavião" mais comum nos centros urbanos, conhecido no nosso país como gavião-carijó ou gavião-pega-pinto (pelo hábito de atacar granjas), nos Estados Unidos é chamado Road Side Hawk, ou seja, gavião-da-beira-da-estrada, de tão comum que é de ser visto, tanto lá quanto cá, pousado em mourões de cercas, postes, antenas etc.



A lista de acipitrídeos que ocorrem no Brasil é realmente muito grande e o nosso espaço para tratar de todos não é suficiente, por isso citarei apenas mais alguns, ou por sua popularidade no interior do país ou por peculiaridades dignas de nota, mas prometo voltar ao assunto assim que se apresentar oportunidade ou interesse dos leitores: Busarellus nigricolis, chamado gavião-belo, grande pescador e comum, mas não exclusivo, no Pantanal Matogrossense. Rosthramus sociabilis, o gavião-caramujeiro, cuja alimentação é praticamente composta exclusivamente de grandes caramujos aquáticos. Helanus leucurus, o pequeno gavião-peneira, capaz de "pairar" batendo as asas para localizar suas presas. Helanoides forficatus, gavião-tesoura, cuja longa cauda bifurcada o torna inconfundível. Heterospizas meridionallis, o gavião-caboclo, muito popular nas áreas rurais e de belíssima plumagem e para finalizar, pelo menos por enquanto, Ictinea plumbea o gavião-pombo, que recebe esse nome popular por se assemelhar aos pombos e não por caçá-los, pois prefere insetos e passarinhos.

Ainda há muito para se escrever sobre as aves de rapina do Brasil e ficarei feliz se este artigo tiver contribuído para um melhor conhecimento deste fascinante grupo de aves. Espero que tenham apreciado e que em breve possamos voltar ao assunto de forma ainda mais detalhada.

* Biólogo. Professor de Ciências Biológicas


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