Em todo o planeta onde são encontrados anfíbios anuros encontramos alguns tipos que se destacam por ter uma coloração bastante atraente. É o caso do animal apresentado neste número da revista, e por isso mesmo possui muitos fãs dentro do mundo da terrariofilia.
Descrição
A mantela dourada é um pequeno anfíbio anuro que mede 2,5 cm de comprimento para as fêmeas, sendo os machos um pouco menores, mais esguios e um pouco menos arredondados. A coloração dos adultos é de um amarelo dourado ao laranja uniforme dorsalmente, com o ventre amarelo nas fêmeas e amarelo claro nos machos. Pela coloração mais clara no ventre dos machos pode-se notar na parte final do ventre duas linhas paralelas que se juntam próximo à cloaca, que nada mais são que os canais por onde eles urinam ou ejaculam no ato reprodutivo. Alguns indivíduos, independente do sexo, possuem pequenas manchas vermelhas na parte inferior dos membros traseiros. Os olhos são de um negro intenso que contrastam bem com a coloração geral.

Habitat e Distribuição Geográfica
As mantelas douradas são habitantes das florestas altas e chuvosas do centro leste de Madagascar, onde habitam o solo e raramente sobem em algum pequeno arbusto, embora seus dedos possuam almofadas adesivas típicas dos anfíbios arbóreos.
Hábitos
As mantelas douradas são animais diurnos e muito ativos, buscando pelo solo da floresta suas pequenas presas, na maior parte constituídas de formigas, cupins e todo pequeno artrópode que possa abocanhar. Sua coloração viva é um aviso para possíveis predadores de que ela não é um bom alimento pois carrega uma boa dose de toxinas em sua pele. Deste modo, as mantelas ocupam um nicho ecológico equivalente às nossas Dendrobates que circulam pelo chão da floresta durante o dia com a mesma segurança.
Apesar disso, as mantelas douradas são mais discretas que outras espécies do gênero (que possui 16 espécies) no tocante ao canto dos machos para atrair fêmeas para a reprodução. Não possuem época reprodutiva bem definida, pois o que regula sua reprodução é a abundância ou escassez de alimentos e a quantidade de chuvas. Nos períodos menos chuvosos há uma queda na taxa reprodutiva.
Os machos cantam para atrair as fêmeas, como ocorre com outros anfíbios anuros, para seu território. Machos que porventura ousem cantar no mesmo território são expulsos aos empurrões e os mais teimosos são agarrados à força e postos para fora.

As fêmeas prontas para reprodução são naturalmente atraídas e ambos se dirigem para a borda de um riacho ou lagoa, onde procuram alguma cavidade sob uma pedra, tronco caído ou pilhas de folhas caídas, onde o macho abraça a fêmea, que põe de 20 a 60 ovos de 1,5 a 2 mm de diâmetro, imediatamente fecundados pelo macho. Após isto o casal se separa e nenhum outro cuidado é dedicado aos ovos, que podem levar duas semanas para eclodir. Ao nascerem, os girinos agitam-se bastante de modo a escorregar para dentro d’água, auxiliados pela grande umidade do local onde se encontram, ou às vezes nem isto é necessário pois se der uma grande chuvarada no momento, comum na época escolhida para a reprodução, os girinos são logo arrastados para dentro d’água.
Na água alimentam-se basicamente de algas e de uma ou outra matéria orgânica morta. No período de 6 a 8 semanas transformam-se em imagos (juvenis) e passam para a terra, com mais ou menos 11 mm de comprimento e de coloração marrom, levando uns 2 a 3 meses para adquirirem a coloração dos adultos. Atingem a maturidade sexual ao completarem 12-14 meses de vida.
Em Cativeiro
A mantela dourada é criada em vários jardins zoológicos, institutos de pesquisa, fundações e por terrariofilistas, pois não são difíceis de se reproduzirem em cativeiro. Pode-se usar um aquário nas medidas de 60 x 30 x 35 cm, onde montaremos um paludário com 70% de área terrestre e 30% de área aquática. Na borda da área aquática colocaremos alguma “toca” construída com cascas de árvores ou pequenos galhos empilhados, com o fundo forrado por musgo úmido (pode-se usar o musgo de Java). O solo pode ser composto por terra vegetal misturada com fibra de coco e atapetado com musgos, podendo-se usar plantas como jibóias (Scindapsus aureus) ou qualquer outra planta que aprecie ambientes úmidos e que goste de iluminação moderada. Pode-se usar ao invés de solo no fundo, seixos rolados ou mesmo bolas de argila expandida, destas usadas em vasos de plantas, desde que mantidos sempre bem úmidos e colocar as plantas em pequenos vasos de barro com solo nutritivo. Neste ambiente poderemos manter uns 4 exemplares adultos.

A alimentação será à base de drosófilas, formigas e grilos recém-nascidos, ou outros insetos de mesmo porte.
Para girinos pode-se usar alimentos com boa base vegetal, de preferência aqueles usados para alimentar cascudos (Família Plecostomidae) e, se possível, algas. Alimentar os imagos dá mais trabalho, devido ao tamanho destes, que necessitam de presas muito pequenas. Mas os terrariofilistas estrangeiros conseguem com sucesso, portanto, nós também poderemos, se um dia a terrariofilia deixar de ser este tabú que permanece em nosso país.
Conservação
A comercialização das mantelas começou no final dos anos 80 mas foi suspensa sua importação de Madagascar em 2006. como ela é reproduzida em cativeiro, o comércio legal continua, em menor escala, a partir dos exemplares criados pelo homem. Ainda existe um comércio ilegal de exemplares coletados nos poucos locais onde estes belos animais são encontrados, o que é uma pena. Não são muitos os locais onde se sabem existir estes animais, não se conhece a sua presença dentro de áreas protegidas e houve uma drástica redução da cobertura vegetal original da ilha, restando menos de 30% da área original de florestas nativas.

As mantelas são animais sensíveis e não suportam bem as condições de viagem, normalmente péssimas, a que são submetidas por contrabandistas, de forma que a maioria morre ou chega ao comércio em péssimo estado.
Infelizmente ainda existem pessoas que se importam em ter, mesmo que para isto haja o sacrifício de muitos animais. Mas por outro lado, existem aqueles que fazem um bom trabalho, procriam seus animais e estimulam a outros a fazer o mesmo, dando uma chance para que estas pequenas jóias vivas possam ser futuramente reintroduzidas nos locais onde hoje correm o risco de desaparecer pela irresponsabilidade humana.
* Médico Veterinário